
Jack tem problemas com o pai. Como a maioria dos personagens. Mas entre todos, seu conflito é o mais difícil de ser entendido, o mais sutil. Sob uma ótica superficial, é complicado entender seu drama. Jack não teve um pai tão repugnante como Kate e Locke. Não teve uma vida difícil como James, não foi abandonado como Hurley e Claire.
Jack se cobra perfeição - talvez por sentir-se na obrigação de corresponder às oportunidades que teve na vida. Com uma mistura de amor e ódio mal identificados e resolvidos, passou a vida tentando impressionar o pai. Sem perceber que não precisava de tanto esforço, transformou o amor que tinha por Christian em conflito e competição. Freud explica.
E como na vida, relacionamentos problemáticos com o pai (ou mãe) refletem-se em todos os outros aspectos de sua trajetória. Comprometido, Jack não sabe desistir. O que pareceu por tanto tempo teimosia e arrogância é fruto de uma personalidade frágil e desesperada para consertar tudo.
Jack teve problemas no relacionamento com mulheres, o que é nítido na dificuldade de aproximação com Kate. Com a própria esposa, a paciente em quem reverteu uma paralisia irreversível - resultado que deve ter assustado bastante o cético e racional médico - ele desenvolveu uma relação que desde o início não tinha chance de ser saudável. Parecia mais uma forma de se apegar ao que ele nunca entendeu.
Ao lado de Sarah, Jack tenta desesperadamente ter uma vida a dois. Porém, nunca conseguiu se entregar emocionalmente. Guardou seus sentimentos, suas dúvidas e inquietações, se afastando de Sarah. E o mais triste: se submeteu ao papel de marido traído, tentando a todo custo manter um casamento falido.
O líder

Não mais a sombra do pai, se sente na obrigação de cumprir as obrigações para as quais se sentira inevitavelmente ligado. Talvez sua desordem emocional seja uma artimanha de Jacob. Talvez seja apenas fruto da conturbada relação paterna.
É difícil não se irritar com Jack durante vários momentos. A intempestiva atitude de superioridade em relação a Locke, a teimosia, a pretensão de onipotência são difíceis de serem entendidas sem que se considere todo o seu passado emocional. Precisamos nos colocar no lugar de Jack. É preciso contextualizar o doutor...
Jack foi herói, não se nega. Assumiu a responsabilidade de liderança, tomou decisões, mesmo que erradas. Quando ninguém mais queria, ele se entregou ao papel de fazer o que era preciso em seu conceito.
Mesmo que sua imagem tenha se desgastado com o tempo entre os sobreviventes, ele teve a firmeza que sempre faltou a Locke. Não se preocupou em ser simpático. Preferiu fazer o que ele achava ser o certo.
Escolhas erradas ou não - só no fim saberemos – Jack conseguiu o objetivo que o transformara no disco arranhado: saiu da Ilha.
A felicidade durou pouco. Como fizera com Sarah, afastou Kate. Como o pai, se tornou um viciado.
Finalmente entende que tem que voltar. E mais uma vez o arrependimento o toma. Só que desta vez o sentimento não está mais enrustido. Jack chegou ao fundo do poço. Mas saiu de lá e foi a pessoa decisiva na volta dos Six para a Ilha.
Se transformando no Homem de Fé, ele se humanizou - não pela questão de ter Fé, não é esta a referência, mas pelo fato de rever conceitos e se desprender do passado. O propósito desta volta não parece ainda não muito claro. Se é realmente refazer a rota e impedir a queda, não sei. Mas não duvido mais que Jack tenha realmente um firme e fundamental propósito em estar onde está quando deixamos a Ilha – no fim da quinta temporada.
E tenho certeza de que no derradeiro suspiro de Lost, teremos Jack Shephard a embalar a despedida desta emblemática e marcante série.
- Obs – É importante ressaltar a ótima atuação de Matthew Fox. Não tão badalado como Terry O´Quinn e Michael Emerson, Fox dá o tom exato ao personagem. Jack não seria Jack sem ele.
Palavra do Paulo

Este post é o primeiro da parceria com o Paulo Montanaro do blog Pensando Imagem e Som. A ideia é trazer uma série de posts especiais confrontando a visão dos dois blogueiros
sobre personagens - e mais tarde, quem sabe - mistérios e mitos da Ilha.
Aqui review do primeiro episódio centrado do Doc, White Rabbit, na visão do Leco, do ótimo Teorias Lost.