21 de abr de 2009

Falando sério - campanha contra a corneta desmedida

Deixando um pouco Lost de lado - só um pouquinho.



Corneteiro é uma gíria consagrada no mundo futebolístico que refere-se ao torcedor/jornalista/dirigente que faz da crítica a rotina. Esteja bem ou mal o time, ele vai arrumar defeito: criticar a escalação, criar boatos sobre venda de jogadores, vai arrumar alguma forma de se sobressair em qualquer bate papo descompromissado sobre aquele que é o mais importante entre os assuntos menos importantes, como diz o corneteiro Milton Neves.
Todo mundo tem um quê de corneteiro. Seja torcedor ou não, você acaba em algum momento cornetando algum assunto do dia-a-dia. O problema é quando cornetar vira um vício e uma referência. No futebol, o ato pode desestabilizar um time, pois a corneta é tão contagioso como uma virose de verão. Muitas vezes derruba técnicos, da um empurrãozinho para o frango do ano ou ajuda o atacante a pisar na bola na hora de tentar marcar um gol que não consegue há meses (pobre Souza!!).
Porém este blog não é sobre futebol. É sobre uma série de TV. E estou tentando contextualizar a ação no universo dos seriados. Não me refiro apenas a Lost, embora o show seja um dos preferidos dos corneteiros de séries, mas à toda a coletividade de programas atualmente comentados. E estendo a comunidade blogueira em geral.
Sou do tempo em que assistíamos séries apenas para nos divertir. O produto televisivo era de segunda linha, sabíamos. Não existia nem de longe a profissionalização que há hoje. Basta assistir alguns episódios de Chips, As Panteras, O Incrível Hulk, entre outrtos ícones da minha infância, para perceber a diferença existente entre os roteiros, a produção, as atuações de hoje e ontem. Mas acreditem visitantes com menos de 30: era imensamente divertido.
A safra recente de séries redefiniu o produto: temos grandes produções, atores de gabarito, roteiros fantásticos, narrativas inovadoras. E por outro lado, criou uma imensidão de blogs especializados em encontrar defeitos, denegrir, zombar. E o fenômeno cresce. Porque garante ibope e polêmicas. É a geração cornetas do entretenimento.
Não acho que críticas devam ser abolidas. Longe disto. O senso crítico é a única salvação da humanidade. Mas há grande diferença entre senso crítico e cornetar. Existe um verdadeiro abismo entre os dois conceitos.
A internet é uma ferramenta relativamente nova. Acreditem visitantes com menos de 30, mas eu cursei a faculdade sem ela. Por isso, acho normal necessitarmos de um tempo para adequar seu uso ao bom senso.
Também por isso, espero - e acredito piamente nisto - que o fenômeno tende a esfriar. Este tipo de blogueiro, com o tempo perderá o atrativo, hoje confundido com irreverência. São em esmagadora maioria mal escritos, repletos de termos chulos, agressividade gratuita e gracinhas desmedidas - aposto que muitos assistem os episódios exclusivamente para inventar piadas. E parece que quanto mais o blogueiro for antipático melhor, mais acessos conseguirá, pois além do rebanho que considera o estilo "inovador", ele arrecada um bom tanto de acessos dos fãs que querem defender suas séries.
O modelo de atração é medíocre. Desculpem se ofendo alguém. Mas é muito apelativo, muito pobre. Ter bom humor é tão importante quanto saber usá-lo. Ter senso crítico pressupõe saber aplicá-lo a si próprio.
Claro que também critico Lost - e muitas outras coisas que gosto. Quem acompanha o blog sabe que não gosto do elenco da Dharma, mas não é isto que vai desmerecer todo o trabalho incrível que vem sendo feito nestes cinco anos na série. Além disto, é apenas a minha opinião, não um tratado de verdade universal. Cursei jornalismo, não artes cênicas ou rádio e tv. Sou só palpiteira, não especialista. Tento aplicar um pouco do que aprendi e da minha visão de mundo nas análises. Só isto.
Este post é só um desabafo. Vejo que esta onda cresce e descubro cópias descaradas do estilo corneta depreciadora onde identifico exatamente as mesmas características. (tem um post ao lado do Zero Hora repleto destas referências). Acho extremamente desagradável e socialmente preocupante esta onda de pseudo especialistas sem formação numa verborragia desenfreada, soltando bobagens imensas. E penso comigo: se este indivíduo não consegue ter o mínimo de bom senso para avaliar um simples programa de TV, como consegue refletir sobre a vida? Que bobagens mais podem sair desta mente?

Ter um blog é muito fácil. Hoje qualquer um pode ter espaço para falar o que pensa. O que deveria ser positivo, não está necessariamente se revertendo na criação de uma geração mais crítica e reflexiva. Exprimir-se publicamente requer responsabilidade. Será que não estamos falando demais? Será quem fala demais tem realmente algo a dizer?
Podemos fazer melhor do que isto, não? Temos capacidade para muito mais, não blogueiros? Podemos criar um estilo próprio com atitude, mas sem apelação. Podemos criticar sem ofender, com elegância. Podemos expressar opinões e visões diferentes. E devemos. Mas com frases bem construídas, argumentação lógica que considere o contexto, que não foque unicamente o imediatismo. Sei que este é o lema do momento (mas este é outro papo mais para meu blog pessoal), mas podemos ponderar. E devemos.

Obrigada!

Um comentário:

Lilica disse...

Concordo com vc Kah! É preciso bom senso em tudo, até nas criticas pois pode-se passar de pseudo-intelectual a idiota numa troca de paragrafos.

Criticas bem construidas, mesmo que não se concorde com elas, é algo que nos levam a refletir e talvez até a rever um ponto de vista. Mas... como vc mesma disse, parece que virou moda criticar sem fundamento.

Deixei de participar de várias comunidades e blogs sobre lost justamente por essa chuva de criticas sem fundamento, essa verdadeira "malhação". Só pq não gostam de um personagem em si, isso eh motivo pra criticar a historia dele na serie, a vida pessoal do artista, a mãe, o pai, coisa de pré-primário.

Beijo e estou sempre por aqui, apreciando sua arte com as palavras

Mais e mais

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